Tenho ouvido muito nos grupos de maçonaria, principalmente agora em época de eleição, sobre o possível "lado político" da ordem, inclusive comentários inclinados a dita direita brasileira. Tais comentário ainda evocam os famigerados Landmarks de Mackey, como se fossem o ZAP de um jogo de truco, dizendo que a esquerda tem princípios que vão contra esses Landmarks.

Não sou de esquerda, mas sou maçom, e como tal, sou contra a intolerância...

E sobre essa ignorância especificamente, gostaria de dizer algumas coisas:

Primeiramente sobre os Landmarks de mackey, pois, Eles deixaram de ser referência na maçonaria mundial a muito tempo. E o "Imutável" não é seguido, seria até um contrassenso uma instituição incentivar seus homens a serem "Livres pensadores" mas não podem contestar algo escrito a mais de 160 anos. Ela é debatida e criticada pela maçonaria mundial a anos, e diversas obediencias regulares nem a consideram. Nem a UGLE a segue. Das 51 obediencias dos EUA, apenas uma utilizava os Landmarks de Mackey.

Temos Landmarks de Pound e de Pike também.

Mas, para isso se tornar uma conversa dentro da linha de raciocínio dita por muitos irmãos, vou assumir os landmarks de Mackey como ponto chave....

Começando por uma distinção que considero fundamental: uma coisa é demonstrar a incompatibilidade entre determinadas doutrinas políticas específicas e determinados princípios maçônicos; outra, muito diferente, é afirmar uma incompatibilidade essencial entre “a esquerda” e a Maçonaria.

A esquerda não constitui uma única filosofia. Marxismo, social-democracia, socialismo democrático, trabalhismo, progressismo, esquerda liberal e diversas correntes de inspiração cristã possuem fundamentos bastante diferentes entre si. Portanto, atribuir a todas elas o materialismo dialético de Marx me parece tão impreciso quanto atribuir a toda a direita o integralismo, o fascismo ou alguma forma de autoritarismo nacionalista.

E aqui está talvez o centro da minha discordância.

Mencionam corretamente o Landmark 19 de Mackey, relativo à crença em Deus, e o 20, referente à vida futura. Se estivermos tratando especificamente do marxismo filosófico clássico e de seu materialismo, concordo que existe aí uma incompatibilidade bastante evidente com uma Maçonaria que exige do candidato a crença no G.A.D.U.

Mas daí não decorre que todo pensamento político situado à esquerda seja materialista ou ateu.

Existiram e existem socialistas cristãos, trabalhistas religiosos, social-democratas profundamente religiosos e inúmeras pessoas que defendem políticas econômicas consideradas de esquerda sem abraçar materialismo metafísico algum.

Então o problema não está em ser “de esquerda”. O problema estaria, especificamente, em professar uma filosofia que negasse aquilo que a própria Obediência exige do maçom.

O Landmark 18, por sua vez, merece ainda mais cuidado. Na formulação de Mackey, ele trata das qualificações tradicionais do candidato, inclusive a antiga exigência de ser “free-born”. Ele não estabelece uma teoria política sobre livre mercado, tamanho do Estado ou redistribuição de renda.

Transformar “homem livre” em defesa necessária de determinada concepção econômica de liberdade me parece uma interpretação política colocada posteriormente sobre o Landmark, e não algo que esteja contido nele.

Da mesma maneira, tenho dificuldade em aceitar “Deus, Pátria e Família” como uma espécie de tríade maçônica universal.

Podemos encontrar deveres para com Deus, para com a sociedade, para com o país, para com a família e para com nossos semelhantes em diversos ensinamentos maçônicos. Isso é perfeitamente verdadeiro.

Mas a fórmula política “Deus, Pátria e Família”, como conjunto ideológico, não é Landmark da Maçonaria.

E considero perigoso confundir as duas coisas, porque então deixamos de perguntar o que efetivamente está no ritual, nas Constituições e nos Landmarks e começamos a introduzir nossas próprias convicções políticas dentro deles.

O mesmo vale para a propriedade privada.

A Maçonaria dignifica o trabalho, a honestidade, a responsabilidade e o direito de cada homem ao fruto legítimo de seus esforços. Concordamos nisso.

Mas não conheço Landmark que estabeleça capitalismo, liberalismo econômico ou determinada concepção de propriedade como sistema econômico obrigatório ao maçom.

Aliás, se o simbolismo do Nível fosse utilizado dessa maneira, alguém poderia fazer o raciocínio inverso e dizer que ele fundamenta economicamente o igualitarismo. E eu consideraria essa interpretação igualmente indevida.

As ferramentas maçônicas são símbolos morais. Transformá-las em programa econômico (seja de direita ou de esquerda) é justamente aquilo que devemos evitar.

Há ainda uma questão histórica que considero importante.

Regimes comunistas efetivamente perseguiram e proibiram a Maçonaria em diversos lugares. Isso precisa ser reconhecido sem qualquer relativização.

Mas regimes de extrema direita também fizeram exatamente isso.

Fascistas, nazistas e outros governos autoritários perseguiram, fecharam Lojas e encarceraram maçons. Portanto, se utilizarmos a perseguição histórica à Maçonaria como critério para determinar incompatibilidade filosófica, teremos de reconhecer que os extremos autoritários de ambos os lados já se mostraram inimigos dela.

E talvez isso nos ensine alguma coisa.

Para mim, a incompatibilidade fundamental da Maçonaria não é com “a esquerda” nem com “a direita”.

É com o fanatismo, o autoritarismo, a intolerância e a negação da liberdade de consciência, venham eles embrulhados na bandeira política que vierem.

Um maçom pode defender Estado maior ou menor, tributação maior ou menor, políticas sociais mais amplas ou mais restritas, posições conservadoras ou progressistas em diversos temas e ainda permanecer perfeitamente coerente com sua condição maçônica.

O limite aparece quando uma ideologia exige que ele abandone princípios que a própria Maçonaria lhe exige: liberdade de consciência, tolerância, respeito ao outro, obediência às leis, dignidade humana e, onde assim estabelecido, crença no G.A.D.U.

Por isso eu vejo um risco quando dizemos que determinado campo político, inteiro, é incompatível com a Ordem.

Imagine dois candidatos igualmente honestos, livres, de bons costumes, crentes no G.A.D.U., respeitadores das leis e comprometidos com suas famílias. Um acredita que a sociedade funciona melhor com menos Estado e impostos menores; outro acredita que determinados problemas sociais exigem maior atuação estatal e redistribuição.

Eu não consigo enxergar em qual Landmark estaria escrito que o primeiro possui uma concepção maçonicamente legítima e o segundo não.

E digo isso sem nenhuma necessidade de defender a esquerda. Minha própria crítica serve igualmente para ela.

Se alguém me dissesse que “um verdadeiro maçom não pode ser de direita” porque a Maçonaria proclama Liberdade, Igualdade e Fraternidade, eu contestaria da mesma maneira. Seria apropriar-se da Maçonaria para validar uma posição política pessoal.

É justamente essa apropriação que me incomoda.

A Loja deveria ser um dos poucos lugares em que homens que pensam politicamente de maneira completamente diferente conseguem se reconhecer como Irmãos.

Talvez aí esteja uma das coisas mais belas da nossa instituição: não produzir homens que pensem todos da mesma maneira, mas ensinar homens que pensam de maneiras diferentes a se encontrarem sob o mesmo Esquadro.

E, nesse sentido, meus irmãos, temo muito mais o maçom que considera sua própria ideologia a única compatível com a Maçonaria do que o maçom de direita ou de esquerda.

Porque é justamente quando temos certeza absoluta de que somente “os nossos” possuem lugar no Templo que a tolerância deixa de ser princípio e passa a ser apenas discurso.