Há um argumento que volta e meia aparece nas nossas rodas e grupos de Rito de York americano: que a nossa prática é a mais "pura", fiel a uma tradição antiga e incorrupta, enquanto o REAA, adoniramita e tantos outros estariam "cheios de enxertos". E até o Rito de York praticado no Brasil seria uma versão adulterada, cheia de "traduções erradas". Confesso que essa conversa sempre me incomodou, não pelo orgulho da nossa tradição, que é legítimo, mas pela premissa por trás dela: a de que existe, em algum lugar, um ritual original, intocado, esperando para ser comparado com todos os outros. Essa premissa é falsa, e precisamos falar sobre isso.
Podemos começar falando da lenda do terceiro grau, tentando aqui não dar "spoiler" para aprendizes e companheiros, analisando o manuscrito Graham, quem é de 1726, portanto anterior, à consolidação do sistema de três graus que hoje consideramos "clássico", Este manuscrito não fala sobre o personagem principal da lenda, alias, fala, mas ele é um personagem coadjuvante. O personagem principal descrito no ritual desse documento é Noé! Sim, aquele mesmo da arca. A premissa é quase a mesma, deixando claro que a história tinha sido desenhada, mas alteraram os personagens.
Nesta versão, mais antiga, os três filhos de Noé que se tornam os "buscadores", e a história possui os mesmos elementos: pontos para levantar, palavras e tudo mais. O estudo que acompanha o manuscrito, publicado na Ars Quatuor Coronatorum, não deixa dúvida: fala-se ali, textualmente, da "transformação de um personagem a outro na mesma lenda" uma reformulação deliberada, atribuída a Desaguliers e seus companheiros, entre 1722 e 1725. A lenda que hoje é o coração inegociável do terceiro grau, em qualquer rito, inclusive no York, é ela mesma um enxerto. Só que um enxerto tão antigo que esquecemos que um dia foi novo.
A Inglaterra de onde herdamos nosso ritual nunca teve "um" ritual: teve pelo menos duas Grandes Lojas rivais, Antigos e Modernos, que discordavam sobre pontos centrais do trabalho e só se uniram em 1813, e mesmo assim precisaram de uma Loja de Reconciliação, presidida pelo Dr. Samuel Hemming, para negociar, quase como um tratado diplomático, o ritual que sairia dali. Ainda hoje circulam, segundo o pesquisador Mike Kearsley, cerca de sessenta variações impressas de ritual só nas lojas inglesas. E foi exatamente desse caldeirão que William Preston, iniciado em 1760, construiu suas "Illustrations of Masonry", baseando-se em "fragmentos de rituais anteriores que descobriu", nas palavras de Kearsley. Não herdou pronto: reconstruiu.
E Thomas Smith Webb, o pai reconhecido do nosso Rito de York americano?
Ele não escreveu o seu monitor do nada. Copiou e adaptou o que Preston já tinha escrito, somado ao exposé Jachin and Boaz de 1762. E não sou eu que está dizendo que ele mexeu demais: um Grão-Mestre americano do século XIX, A. T. C. Pierson, de Minnesota, quem escreveu, sem meias palavras, que "Webb, ao mudar e alterar as preleções de Preston, deixou de fora a parte mais bela e instrutiva, e destruiu boa parte do simbolismo dos graus" — citação preservada por Arturo de Hoyos em seu estudo sobre os rituais cifrados americanos.
Isso não seria um "enxerto" reconhecido pelos próprios contemporâneos de Webb?
E depois de Webb, a coisa só se pulverizou mais. Cada novo estado formava sua própria Grande Loja, com sua própria "obra"
Kearsley documenta que, por causa da proibição de imprimir o ritual, "diferenças se desenvolviam" e "os irmãos frequentemente não tinham certeza de qual era o verdadeiro ritual".
A Pensilvânia, até hoje, nunca adotou o trabalho de Webb. Jeremy Cross, menos de trinta anos depois do primeiro Monitor de Webb, acrescentou ao nosso grau de Mestre as imagens que hoje tratamos como "tradicionais", a virgem chorando, a coluna quebrada, a urna, no seu True Masonic Chart, de 1826. E quando a divergência entre jurisdições ficou insustentável, Rob Morris criou, na década de 1860, um movimento quase clandestino, os Conservators, com cifra própria, calendário próprio e um "Grão-Conservador", só para tentar impor alguma uniformidade ao nosso ritual. Foi condenado pela própria Grande Loja por isso.
Então, antes de chamar o REAA de "cheio de enxertos" ou rir da tradução brasileira do nosso próprio rito, vale lembrar: o Rito de York americano, nesses termos, é feito de enxertos, do início ao fim, assinados por nomes que conhecemos: Desaguliers, Preston, Webb, Cross, Morris.
A diferença entre nós e os outros ritos não é pureza contra corrupção. É, no máximo, que uns documentaram melhor as próprias emendas. Será que a verdadeira Maçonaria esteja em fingir que paramos no tempo? ou em ter a humildade de reconhecer que toda tradição viva é, por definição, uma tradição que mudou, e que isso não a diminui? fica a reflexão.
Fontes
Graham Manuscript (1726) — transcrição e estudo, incl. artigo de Bro. Harvey, Ars Quatuor Coronatorum, 1967.
Mike Kearsley, "Rob Morris and the Conservator Movement: On the Development of Masonic Ritual in the United States", 2021.
Arturo de Hoyos, "An American Masonic Cipher Ritual and Its Aftermath: The Parker Masonic Tablet", 2018 (cita A. T. C. Pierson).
R. V. Denslow, The Masonic Conservators, Missouri: Masonic Services Association, 1931.
William Preston, Illustrations of Masonry, 1772/1887.
Jeremy L. Cross, The True Masonic Chart, 1826.


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