A∴G∴D∴G∴A∴D∴U∴ Este trabalho visa discutir alguns conceitos de liberdade e compreender a atuação da maçonaria, uma antiga instituição de peculiar sistema de moralidade, e sua atuação na construção de uma sociedade mais justa e mais livre.

Fundamentos da liberdade

Primeiramente, analisamos o conceito de liberdade, através de grandes pensadores da história. Na filosofia grega, a liberdade é tratada por três termos principais: eleutheria, enkrateia e autarkéia. Eleutheria refere-se ao status político que distingue cidadãos de escravos. Aristóteles, citado por Farias (Farias, 1995, p. 174), defende que viver conforme as leis é a verdadeira liberdade. Enkrateia, por sua vez, trata do autocontrole. Sócrates, também citado por Farias (1995, p. 177), entende a liberdade como o domínio das paixões.

Para ele, ser livre é ser capaz de vencer as próprias emoções e desejos egoístas, o que leva a uma vida orientada pela virtude. autarkéia refere-se à autonomia e busca pela felicidade por meio das virtudes. Como afirma Farias (1995, p. 210), o sábio, ao dominar seus instintos, atinge a autossuficiência e a liberdade plena. Esses conceitos estão diretamente ligados aos ensinamentos maçônicos, especialmente o de enkrateia, que seu conceito aparece diretamente em nossos rituais.

Aristóteles (1973, p. 429) conclui que o homem deve buscar a imortalidade transcendendo as limitações mundanas, onde a virtude é o caminho para a liberdade ideal. A liberdade, um conceito complexo e até abstrato, foi explorada por diversos pensadores como Descartes, Hobbes, Locke e Rousseau. Que não vamos citar aqui. Utilizando especialmente os conceitos de Aristóteles e Sócrates, podemos ver a influência da Maçonaria na história.

Liberdade na Tradição Maçônica

A liberdade, enquanto conceito filosófico, é um pilar essencial para a construção de qualquer sociedade democrática. Essas discussões filosóficas fundamentam o entendimento de como a Maçonaria incorpora e promove os ideais de liberdade. Desde sua origem, a Maçonaria se posicionou como uma defensora fervorosa da liberdade de pensamento. No período operativo da Maçonaria, conforme conta a história, os pedreiros livres criaram um ambiente seguro em suas guildas para transmitir conhecimentos sobre construções.

Com o tempo, passaram a aceitar outros profissionais e pensadores (os chamados "maçons aceitos") em suas guildas, pois, na época dos feudos, esses eram locais seguros para discutir ideias e

pensamentos. Por isso, eram conhecidos como “Livres Pensadores” (Senna, 1981). A Maçonaria, em sua essência, prega o conceito de liberdade. Até hoje, seus rituais, simbologias e ensinamentos enfatizam a importância de cada indivíduo buscar sua própria liberdade, ao mesmo tempo em que respeita a liberdade alheia. Na tradição maçônica, os fundamentos da liberdade não se limitam a teorias abstratas, mas são praticados por meio de ações concretas. A Maçonaria tem uma longa história de envolvimento em movimentos sociais e políticos que buscaram expandir os direitos e as liberdades individuais.

Maçonaria na luta pela liberdade

ILUMINISMO – A Maçonaria teve uma ligação profunda com o Iluminismo, uma era que desafiou ideias tradicionais e promoveu a liberdade de pensamento. Grandes nomes do Iluminismo, como Voltaire, Montesquieu e Locke, eram maçons. Outros, como Denis Diderot e Jean-Jacques Rousseau, embora não haja comprovação de suas iniciações na Maçonaria, estavam de alguma forma ligados ao círculo maçônico de suas épocas, e suas ideias eram consonantes com os princípios maçônicos. O Iluminismo foi um dos maiores movimentos em prol da liberdade de pensamento na história.

REVOLUÇÃO AMERICANA – Muitos dos Pais Fundadores dos Estados Unidos eram maçons, como George Washington e Benjamin Franklin. A influência da Maçonaria nas ideias de liberdade e direitos individuais foi crucial para a formação da Constituição dos Estados Unidos. A Declaração de Independência de 1776 afirma que todos os homens "são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, entre eles a vida, a liberdade e a busca da felicidade". Esse documento, que sela a luta pela liberdade, foi redigido por um maçom e assinado por, no mínimo, nove outros maçons.

MOVIMENTOS ABOLICIONISTAS - No Brasil, além das histórias já conhecidas sobre o projeto emancipacionista liderado por Joaquim Nabuco, a influência maçônica na literatura da época também se destacou. Rui Barbosa, Castro Alves e Luiz Gama, escritores e maçons, difundiram o pensamento libertário por meio de livros e ações que impulsionaram a abolição da escravidão e a participação da Maçonaria na Lei Áurea. O processo abolicionista contou com a participação ativa das lojas maçônicas nos bastidores da história. Um exemplo é a loja Lealdade e Brio, da cidade de Resende (RJ).

Em uma ata datada de 15 de outubro de 1874, relata-se que uma escrava chamada Benedita, de apenas 12 anos, bateu à porta da loja durante uma reunião, pedindo misericórdia, pois estava sendo procurada por ter fugido do castigo. Ela foi recebida pelo Ir. Cobridor Umbelindo, e a sessão foi suspensa para entender a situação. Após as devidas apurações, a loja foi reaberta com o objetivo de arrecadar fundos para comprar a alforria da menina. Foram coletados 200$000 (duzentos mil réis) e Benedita ficou sob a tutela do Ir. Umbelindo até ser libertada.

Em Resende, a menina ficou conhecida como "A Escrava que ‘os bodes’ libertaram". Em Belém (PA), a avenida Padre Eutíquio, uma das mais importantes da cidade, destaca-se pelo comércio e pela Praça Batista Campos. No entanto, a pessoa que dá nome à avenida, um

padre, político e negro da cidade, era secretamente maçom. Ele liderou, na loja que ficava na rua que leva seu nome, um movimento nos anos 1860 e 1870 em que maçons se reuniam para comprar escravos e libertá-los! Esses são apenas dois exemplos dos inúmeros feitos da Maçonaria nos bastidores da história brasileira em prol da liberdade. INFLUÊNCIA CONTEMPORÂNEA Nos dias de hoje, a Maçonaria continua a exercer influência em diversas esferas sociais e políticas, embora muitas de suas atividades permaneçam discretas. A luta pela liberdade ao longo da história gerou frutos que são colhidos no mundo moderno.

Com a interatividade proporcionada pela internet e as múltiplas discussões contemporâneas, a Maçonaria não atua mais em revoluções ou guerras, mas se dedica ao resgate de valores, como o combate ao obscurantismo, ao fanatismo e ao preconceito. Ela promove o bem, apoia causas sociais, e participa de debates em prol da pátria e da humanidade. Hoje, espadas foram substituídas por canetas, e os valores maçônicos são refletidos na política, na arte e na atuação de maçons em todo o mundo. Ainda assim, alguns desafios persistem.

Por se tratar de uma instituição em que muitos membros são conservadores, certas discussões, comuns nos tempos atuais, são evitadas ou até suprimidas. Em uma entidade que outrora defendia a liberdade de pensamento, alguns membros hoje reprimem ideias mais liberais. Além disso, há uma divisão entre potências maçônicas que, em vez de se unirem por uma sociedade mais justa, se fragmentam por razões políticas ou, em um cenário ainda mais preocupante, por motivos que deveriam ser combatidos pelos próprios maçons: o ego.

A Maçonaria foi e continua sendo uma entidade que prega os princípios da liberdade, não apenas em palavras, mas também em ações concretas. Desde sua fundação, a instituição se comprometeu com a promoção da liberdade individual e coletiva, oferecendo a seus membros não apenas um espaço de reflexão, mas também um campo de atuação. Ao longo da história, seja em movimentos sociais, revoluções políticas ou mesmo na defesa dos direitos humanos, a Maçonaria desempenhou um papel de vanguarda, influenciando decisões e transformações cruciais para o desenvolvimento de sociedades mais justas e igualitárias.

Mesmo atualmente, onde as batalhas pela liberdade assumem formas mais sutis e complexas, a Maçonaria permanece fiel a seus valores, formando intelectualmente seus membros para que possam influenciar a sociedade de maneira positiva. As reuniões maçônicas, os debates e os estudos realizados dentro das lojas preparam seus integrantes para serem agentes de mudança, seja no campo social, político ou cultural. Nos bastidores, a Maçonaria continua a contribuir para moldar o mundo. Em tempos de obscurantismo, fanatismo ou tirania, ela oferece uma rede de apoio, resistência e ação.

Formando líderes que, quando necessário, estão preparados para se levantar contra qualquer forma de opressão. Dessa forma, a Maçonaria não apenas recorda as glórias de um passado libertador, mas também se projeta no futuro, sempre pronta para atuar em prol da construção de uma sociedade onde a justiça, a igualdade e a liberdade sejam garantidas para todos.

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