Possíveis origens da Maçonaria e desenvolvimento das Grandes Lojas
Inicialmente, a Maçonaria era uma prática operativa dedicada à arte e ciência da construção. Os maçons operativos (pedreiros) eram trabalhadores qualificados, diferentes dos pedreiros de hoje, planejavam a construção, entalhavam pedras e construíam. Grosso modo, uma mistura de engenheiro, arquiteto e construtor. Eram trabalhadores muito inteligentes e utilizavam um sistema de moral como um meio para aperfeiçoar suas habilidades e criar estruturas magníficas.
A moral na época não era bem definida na sociedade, principalmente em confrarias de trabalhadores. Com o tempo, a Maçonaria evoluiu para uma forma especulativa, onde a formação moral tornou-se o objetivo principal, utilizando a simbologia da construção para transmitir ensinamentos morais, éticos e filosóficos.
Maçonaria Operativa: dedicada à arte e ciência da construção, tendo a moral como meio.
Maçonaria Especulativa: a formação moral como fim, tendo por base na simbologia da arte e ciência da construção As origens da maçonaria são diversas e sua história, além de complexa, carrega uma série de ficções misturadas com realidade. Invenções ao longo do tempo confundem maçons e estudiosos e inverdades são tão difundidas que se tornam “realidade” O Objetivo deste ensaio é apresentar alguns fatos históricos que remontam as origens verdadeiras da maçonaria, além de desmistificar algumas lendas inventadas.
É claro que não terá aprofundamento na história e tampouco nas lendas pois necessitaria de muitas linhas a mais de texto.
Principais teorias
de origem da Maçonaria Especulativa Existem diversas teorias da origem da maçonaria, dentre elas as mais influentes são:
- Rosacruzes:
- Templários:
- Guildas Romanas:
Teoria do Nascimento
- Teoria da transição
Teoria Rosacruz
No que diz respeito a origem por rosacruzes, deve-se a teoria de Jean Marconis de Nègre, declarando que a Rosacruz teve origem no ano de 46 por Marcos, O Evangelista, tendo sido precursora da maçonaria.
Porém o que temos sobre a origem da tradição Rosacruz se da a dois documentos publicados anonimamente na Alemanha, o Fama Fraternitatis e o Confessio Fraternitatis, dois manifestos publicados nos anos de 1610 e 1615 respectivamente. Inicialmente era somente uma tradição no século XVII. no início do século XVIII foi criada pelos próprios Maçons escoceses da época a Ordem Societas Rosacruciana sendo a primeira Ordem Rosacruz. Ou seja, ao contrário da teoria de Nigrè, a Ordem Rosacruz surgiu após e por causa da maçonaria.
Teoria dos Templários
Surgiu devido a um Chevallier chamado Ramsey, que era orador de uma loja, e durante uma iniciação deu um discurso que foi muito difundido e é até hoje conhecido por muitos maçons, especulando que a origem da maçonaria se dera aos templários. “Nossos ancestrais, os cruzados… Nossos fundadores não eram simples trabalhadores em pedra... mas também religiosos e príncipes guerreiros que planejaram, edificaram e protegeram os Templos do Altíssimo. Rei Salomão escreveu em caracteres hieroglíficos nossos estatutos, nossas máximas e os nossos mistérios… Este livro foi perdido… até o tempo das Cruzadas...
Reis, príncipes e senhores retornaram da Palestina para suas próprias terras e ali estabeleceram diversas Lojas…” Oração de Ramsay – 1741 O Objetivo de Ramsey com este discurso era dar um aspecto mais “Cavalheiresco” a Ordem. Diferente da descendência de antigos construtores, ser descendente de cavaleiros era algo mais nobre, fazendo assim nobres e intelectuais se interessarem pelo ingresso à Maçonaria. Entretanto, essa teoria não possui nenhum aspecto histórico
Guildas Romanas
A teoria mais aceita sobre a origem da maçonaria, são as guildas romanas, que dominava a Inglaterra e a Escócia a partir do século I até, pelo menos, o século V surgindo neste período as guildas de ofício O império romano estava em expansão, e quando se estabeleciam em algum local, ali eram montadas guildas de ofício de diversos trabalhadores (artesões, alfaiates, carpinteiros etc.) dentre elas, a maior era a dos construtores (Maçons) que por terem mais trabalho na construção, dispunham de mais membros.
O desenvolvimento dessas Guildas acabou formando encontros para discussões do ofício, partilhar seus conhecimentos, dentro outros assuntos, surgindo assim os primeiros alojamentos (lojas) de maçons. Essa crescente se manteve mesmo após o fim do Império Romano. Os construtores eram chamados para construir monumentos, catedrais, pontes, dentre outros. Formando novas guildas e alojamentos.
Alguns documentos como a
Carta de Bolonha
indicam que já no início do século XIII os construtores aceitaram em suas lojas homens que não eram construtores em pedra, devido a moral dos construtores serem admiradas e aquele ser um lugar seguro para quem queria “pensar por si próprio”, sem interferências da igreja e da monarquia.
Teoria do Nascimento Essa teoria defende que a Maçonaria não possui uma origem linear e contínua a partir de organizações anteriores, como as guildas de pedreiros operativos, os Templários, Rosacruzes ou os Colégios Romanos, mas sim que ela nasceu como uma nova instituição, fundamentada em conceitos filosóficos, iluministas, científicos e humanistas do início da modernidade.
Ou seja, segundo essa visão, a Maçonaria foi criada propositalmente, como uma organização que buscava construir um espaço de encontro para homens livres, de diferentes credos, classes sociais e pensamentos, com foco no aperfeiçoamento moral, intelectual e social — e não como simples continuidade das corporações de ofício ou ordens místicas anteriores. Ela se contrapõe à Teoria da transição, que afirma que a Maçonaria moderna descende diretamente das antigas guildas de pedreiros operativos, dos Templários ou de sociedades esotéricas medievais.
Não há registros históricos suficientes que sustentam essa teoria, sendo considerada irrelevante nos meios acadêmicos.
Teoria da Transição
A Teoria da Transição propõe que a Maçonaria Especulativa resultou de uma evolução progressiva das antigas corporações operativas de pedreiros, especialmente entre os séculos XVI e XVII. Com a decadência das atividades de construção, essas corporações começaram a admitir membros que não exerciam a profissão, conhecidos como “maçons aceitos”. Eram, em sua maioria, pensadores, nobres e estudiosos interessados no simbolismo, na filosofia e nas ciências esotéricas, como o neoplatonismo e a alquimia.
Com o tempo, esses membros passaram a ter influência significativa, transformando gradualmente a natureza das lojas, que deixaram de ser estritamente operativas e passaram a ter caráter filosófico, moral e iniciático. Esse processo culminou na criação da Grande Loja de Londres, em 1717, marco da Maçonaria Especulativa moderna. No entanto, embora amplamente aceita, essa teoria é alvo de críticas. Alguns estudiosos apontam que a simples admissão de membros não-operativos não comprova, por si só, uma transformação institucional profunda, podendo se tratar apenas de concessões honoríficas.
Além disso, registros históricos indicam que, por um período, coexistiram tanto lojas puramente operativas quanto lojas compostas majoritariamente por membros especulativos, o que relativiza a ideia de uma transição linear e direta.
Marcos históricos
Houve alguns marcos históricos importantes para entender o desenvolvimento da maçonaria especulativa, São eles:
- Carta de Bolonha - 1248
- Poema Regius – 1390
- Estatuto de Schaw - 1598
- Teoria de John Locke – 1696
- Revolução Industrial - 1780
Carta de Bolonha
Entre os anexos, há uma “lista de matrícula” de 1272, que contém 371 nomes de Mestres Maçons, dos quais 2 eram escrivães públicos, outros 2 eram freis e 6 eram nobres. Ou seja, já existiam maçons especulativos, cerca de 500 anos antes da fundação da primeira Grande Loja.
O poema Regius
Publicado em 1840 com o título de “Um poema sobre a constituição da Maçonaria”, descoberto por James Halliwell, que o datou como de 1390. São 794 linhas em rima, que conta a lenda de que a Arte Maçônica tem origem no Egito, aprendida por Euclides até chegar ao Rei Athelstan, 1º Rei da Inglaterra, em 926. O descobridor desse raríssimo documento foi James O. Halliwell Phillips, antiquário e bibliotecário inglês, não maçom, nascido em 1820 e falecido em 1889.
O poema apesar de possuir fatos históricos com algumas ficções, nos traz a ideia de que já havia maçons especulativos e que os antigos construtores já possuíam, não somente técnicas de construção, mas, um sistema de moralidade bem definido.
Estatutos de Schaw
O Rei James VI da Escócia, em 1598, nomeou William Schaw como seu “Mestre de Obras”. Schaw publicou, em 28-12-1598, um Estatuto para todos os maçons e Lojas do reino. Um ano depois, publicou o 2o Estatuto. Eles previam a “arte da memória”, o uso de luvas, e a existência de banquetes maçônicos etc. A teoria de John Locke Em 1696, John Locke traduziu e comentou um manuscrito que tinha 160 anos e que relata a origem da Maçonaria inglesa a partir de Pitágoras.
A revolução Industrial
Muitos dos países europeus adotaram leis proibindo a Maçonaria Operativa, como na França: “Proibimos todos os mestres e companheiros, operários e aprendizes do direito de formar associações, ou mesmo assembleias entre eles, sob qualquer pretexto. Em consequência, suprimimos todas as confrarias que possam ter sido estabelecidas tanto pelos mestres dos corpos e comunidades, como pelos companheiros e operários, das artes e ofícios”. Fonte: Recueil Général des Anciennes Lois Françaises.
Por tudo apresentado até aqui, entende-se que por mais de 500 anos maçons operativos e especulativos conviveram nas Lojas europeias. Com a saída dos maçons operativos, muito do simbolismo original se perdeu. Ex.: Corda de 81 nós. Desenvolvimento das Grandes Lojas Durante o início do século XIII a maçonaria começou a se organizar, dando início as primeiras Grandes Lojas.
Até o momento, as lojas eram independentes e soberanas, até que, como conta a história na Constituição de Anderson, no dia 24 de junho de 1717, dia de São João, quatro lojas fizeram uma reunião conjunta para comemorar o solstício de verão do hemisfério norte, que ocorreu na Cervejaria do Ganso e da Grelha (The Goose and Gridiron), onde se reuniram, para além de uma Loja com o mesmo nome, mais três: A Coroa (The Crown); A Macieira ( The Apple) e O Copázio e as Uvas (The Rummer and Grappes), elegeram como primeiro Grão-Mestre o Irmão Sir Anthony Sayer.
Essa primeira Grande Loja era chamada de “Grande Loja de Londres e Westminster”, posteriormente em 1725 o nome foi alterado para “Grande Loja da Inglaterra” Existem muitas controvérsias sobre esta data, sendo mais provável a Grande Loja ter sido fundada em 1721 sendo o Duque de Montagu seu primeiro Grão-Mestre. Conforme o estudo completo dos pesquisadores Andrew Prescot e Susam Summers. Porém, mesmo sendo mais provável a fundação em 1721, com diversos indícios, a data oficial é 1717. A única evidência dessa fundação é a segunda constituição de James Anderson que conta essa história.
Anderson realizava algumas atividades, dentre elas fazia arvores genealógicas falsas que ligavam o parentesco a qualquer pessoa que lhes procurava. Atividade que hoje pode ser considerada fraudulenta, mas, sem cometer anacronismo, sabemos que nessa época isso era comum. Portanto, o que Anderson escreveu não é de confiança. Em 1730, Samuel Pixard, que havia iniciado na Maçonaria, foi um detrator que escreveu um livro chamado “Maçonaria Dissecada” onde revelava o ritual praticado naquela época.
Isso gerou uma grande preocupação dos maçons da época, em especial da Grande Loja da Inglaterra, que modificaram o ritual para evitar que qualquer um “não maçom” que tivesse lido o livro, entrasse em uma loja maçônica.
Simultaneamente no século XVIII, havia 6 Grandes Lojas na Europa:
Inglaterra:
- Grande Loja de York
- Grande Loja dos Modernos
- Grande Loja dos Antigos
- Grande Loja de Preston
- Grande Loja da Escócia
- Grande Loja da Irlanda
A Grande Loja
de York William Preston indica assembleias gerais sem interrupção de Grão-mestres desde 1558. Robert Benson, Prefeito de York, era o Grão-Mestre da Grande Loja de York entre 1714 e 1725. Trabalhava com 05 graus e adormeceu em 1792. A Grande Loja dos modernos Fundada, supostamente, em 24/06/1717. Iniciativa de 03 Lojas de Londres e 01 Loja de Westminster: “O Ganso e a Grelha”, “A Coroa”, “A Macieira”, e “O Copázio e as Uvas”. Chamada de “Grande Loja de Londres e Westminster” e muda seu nome, em 1725, para Grande Loja da Inglaterra.
Maçonaria dissecada de 1730 ocorreu mudanças nos rituais da maçonaria mais antiga e passaram a se chamar de modernos, pois, de forma pejorativa, os maçons que não concordavam com as mudanças no ritual passaram a chamá-los de “modernos”. Eles adotaram a alcunha. Maçonaria dos antigos Fundada em 1751, por irmãos insatisfeitos com as “modernizações” que a Grande Loja da Inglaterra implementara a partir de 1730, o que rendeu a ela o apelido de “dos Modernos”.
Contou com reconhecimento das Grandes Lojas da Irlanda e Escócia, que também passaram a se chamar de “Antigos” e se dirigir a não reconhecida como “dos Modernos”. Grande Loja de Preston Fundada em 1779, por 10 Lojas que não aceitaram a injustiça cometida pela Grande Loja dos Modernos contra William Preston. Seu nome oficial foi “Grande Loja da Inglaterra ao Sul do Rio Trent”, e teve 10 anos de duração, até que a Grande Loja dos Modernos pediu desculpas a Preston.
Grandes Lojas da Irlanda e da Escócia
A Grande Loja da Escócia foi fundada em 1736 e reclama a maior antiguidade de práticas maçônicas. Suas Lojas mantêm alto nível de independência da Grande Loja em comparação a outras jurisdições. A Grande Loja da Irlanda existe desde, pelo menos, 1725, e se declara a mais antiga em existência contínua. Ambas se denominavam “Antigos” e reconheciam na Inglaterra a Grande Loja dos Antigos.
Fusão das Grandes Lojas (criação da loja de reconciliação, posteriormente chamada de Loja de promulgação)
Em 1813, na Europa, ocorreu a fusão das duas Grandes Lojas da Inglaterra, a Grande Loja dos Antigos e a Grande Loja dos Modernos, formando a Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE). Este evento, que culminou em 27 de dezembro de 1813, marcou um momento significativo na história da Maçonaria, levando a uma maior padronização de rituais e procedimentos, bem como a uma expansão da ordem A fusão foi resultado de quase 63 anos de divisão entre as duas Grandes Lojas, com objetivo de unificar a Maçonaria Inglesa.
O projeto de lei mencionado por Laurence Dermott;
- A Loja de Promulgação e fundação da GLUI – 1809;
- A fusão – 1813;
- A Loja de Reconciliação– 1813;
- A Emulation Lodge of Improvement – 1823.
Criada com a fusão de prática dos dois ritos Hanrry Carr disse que o rito de York é o que preserva melhor as práticas dos antigos rituais.
“Não posso entrar em detalhes agora, mas dos Rituais e Monitores que tenho estudado e das Cerimônias e Demonstrações que tenho visto, não há dúvidas que o ritual de vocês (York) é mais completo que o nosso (Emulação), dando ao candidato mais explicações, interpretações e simbolismo, que normalmente damos na Inglaterra. Com efeito, por causa das mudanças que fizemos em nossos trabalhos entre 1809 e 1813, é justo dizer que, em muitos aspectos, o seu ritual é mais antigo que o nosso e melhor que o nosso.”
Fonte: Harry Carr.
Seiscentos anos de ritual maçônico. A rivalidade entre essas Grandes Lojas fez com que iniciassem uma corrida de “colonização maçônica” no velho e no novo mundo. Suas diferenças geraram a variedade de ritos e práticas maçônicas existentes atualmente.
Conclusão A origem da maçonaria especulativa ainda é muito estudado e não se tem uma conclusão certa. Entretanto, com todos os documentos antigos é possível mapear suas possíveis origens. O que infelizmente vemos, é uma invasão da chamada “Escola Romântica” que disseminam histórias fantasiosas, com o intuito muitas vezes de enobrecer ou de dar um aspecto divino a maçonaria e, infelizmente, é repetido por muitos irmãos que não tiveram acesso e não conhecem a escola autêntica. Dificultando a propagação de histórias verídicas e estudos sérios.
O desenvolvimento das Grandes Lojas já se iniciou com desentendimentos e brigas de ego, algo que infelizmente é visto até os dias de hoje na maçonaria mundial. O que nos espanta, pois a liturgia maçônica e nossos ensinamentos nos direcionam para o contrário (combater o obscurantismo, fanatismo, preconceitos e os erros).
Bibliografia
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