A Casa que Davi Sonhou
Salomão e a construção do Templo Tudo começou antes de Salomão ser rei. Na verdade, começou antes mesmo de ele ter qualquer coisa a ver com a história. Davi já era rei de Israel. Depois de anos de guerras, perseguições, batalhas e disputas pelo trono, finalmente havia chegado a um período de relativa tranquilidade. Jerusalém estava sob seu domínio, seus inimigos haviam sido contidos e ele agora morava em um belo palácio construído com madeira de cedro. Foi então que alguma coisa começou a incomodá-lo. Certo dia, conversando com o profeta Natã, Davi fez uma comparação bastante simples: — Olhe para isso.
Eu moro numa casa de cedro, enquanto a Arca de Deus continua dentro de uma tenda. A Arca da Aliança era o objeto mais sagrado de Israel, ligada à aliança feita entre Deus e o povo desde os dias de Moisés. Durante séculos, ela estivera associada ao Tabernáculo, uma estrutura móvel criada no período em que os israelitas ainda atravessavam o deserto. Agora Israel tinha território, tinha capital e tinha rei. Mas ainda não tinha um Templo. A ideia de Davi parecia óbvia: se ele tinha construído uma casa para si, queria construir uma casa para Deus. Natã gostou imediatamente. — Faça o que está pensando.
Deus está com você. Só que naquela mesma noite Natã recebeu uma mensagem diferente. Ele deveria voltar até Davi e dizer, em outras palavras: — Você quer construir uma casa para mim? Desde que tirei Israel do Egito, caminhei com o meu povo numa tenda. Nunca exigi de nenhum dos líderes de Israel que construíssem para mim uma casa de cedro. E então veio a grande inversão da história. Davi queria construir uma casa para Deus. Deus respondeu dizendo que seria Ele quem construiria uma “casa” para Davi — não uma construção de pedra e madeira, mas uma dinastia.
Depois da morte de Davi, um de seus descendentes assumiria o trono. Esse filho, sim, construiria o Templo. Davi teria a ideia. Seu filho faria a obra. (2 Samuel 7:1-17; 1 Crônicas 17:1-15) Mais tarde, o livro de Crônicas apresenta outra explicação que Davi teria dado ao próprio Salomão. Ele havia desejado construir o Templo, mas sua vida fora marcada por guerras e derramamento de sangue. A tarefa seria entregue a um filho cujo reinado estaria associado à paz.
Esse filho seria Salomão. (1 Crônicas 22:6-10; 28:2-7) Mas ainda havia um detalhe essencial. Onde construir?
Uma eira, uma praga e o lugar do futuro Templo
O local onde o Templo seria levantado entrou na história de uma maneira bastante dramática. Nos últimos anos de Davi aconteceu um episódio estranho e difícil do relato bíblico. O rei decidiu realizar um censo de Israel. A atitude é apresentada como pecado, e depois disso uma calamidade atingiu o povo. Davi percebeu a gravidade do que havia feito. Quando a destruição se aproximava de Jerusalém, o profeta Gad recebeu uma orientação: Davi deveria subir até uma eira pertencente a um jebuseu e construir ali um altar.
O proprietário desse terreno aparece com nomes um pouco diferentes nos dois relatos bíblicos: Araúna, em Samuel, e Ornã, em Crônicas. Davi foi até ele. Ao perceber o que estava acontecendo, o homem se dispôs a entregar o terreno, os animais e até a madeira necessária para o sacrifício. Davi recusou. Ele não queria oferecer a Deus algo que não lhe tivesse custado nada. Então comprou o lugar, construiu ali um altar e ofereceu sacrifícios. Crônicas acrescenta que fogo desceu do céu sobre o altar. A praga cessou. E naquele momento Davi chegou a uma conclusão decisiva: — É aqui.
Aquela eira passaria a ser o local destinado à Casa de Deus. (2 Samuel 24:1-25; 1 Crônicas 21:1-30; 22:1) Crônicas identifica depois esse lugar como o Monte Moriá, em Jerusalém, exatamente onde Salomão começaria a construção. (2 Crônicas 3:1) Davi não construiria o Templo. Mas isso não significava que ficaria parado. Muito pelo contrário.
Davi começa a construir sem colocar uma única pedra Quando percebeu que Salomão seria o responsável pela obra, Davi aparentemente pensou algo bastante prático: seu filho era jovem, a construção seria gigantesca e não fazia sentido deixá -lo começar do zero. Então começou a preparar tudo o que podia. Mandou reunir trabalhadores e colocou estrangeiros residentes em Israel para trabalhar no corte das pedras. Separou grandes quantidades de ferro para os pregos, portas e encaixes. Juntou bronze em tamanha quantidade que o próprio relato simplesmente desiste de dar um peso.
Madeira de cedro começou a chegar dos sidônios e tírios. Pedras, madeira, ferro, bronze, ouro, prata. Davi estava montando o estoque de uma obra que sabia que nunca veria pronta. (1 Crônicas 22:2-5) Chamou Salomão e explicou a situação. Ele poderia ter dito mais ou menos assim: — Meu filho, eu queria construir essa casa. Mas Deus decidiu que não seria eu. Minha vida foi uma vida de guerra. Você terá uma oportunidade diferente. Seu reinado será de paz. É você quem vai construir a Casa do Senhor. Depois veio o conselho de pai para filho: — Tenha coragem. Faça o trabalho.
E que Deus esteja com você. (1 Crônicas 22:6-16) Davi também chamou os líderes de Israel e praticamente deixou claro que aquilo não era um projeto particular de Salomão. Eles deveriam ajudá-lo. Havia agora um país relativamente estável, recursos acumulados, artesãos disponíveis e um rei que já havia preparado boa parte do terreno político para que seu sucessor pudesse se dedicar à obra. (1 Crônicas 22:17-19) E Davi foi ainda além. Ele começou a organizar o funcionamento da futura Casa antes mesmo de ela existir. Os levitas foram distribuídos em funções.
Alguns seriam responsáveis pelo serviço religioso; outros, pela administração; outros seriam porteiros; havia tesoureiros e responsáveis pelos bens consagrados. Os sacerdotes foram organizados em divisões. Músicos ligados às famílias de Asafe, Hemã e Jedutum também receberam funções específicas. Era como organizar os funcionários de um edifício que ainda estava apenas no papel. (1 Crônicas 23–26) Então, perto do fim da vida, Davi reuniu os principais líderes do reino em Jerusalém. Diante deles, contou novamente o que tinha acontecido.
Disse que sempre desejara construir uma casa onde a Arca pudesse repousar, mas que Deus havia escolhido Salomão para realizar a obra.
Depois chamou o filho. E o conselho foi direto: — Conheça o Deus de seu pai e sirva a Ele de coração. Você foi escolhido para construir o santuário. Portanto, seja forte e faça. Então Davi entregou a Salomão os planos. Crônicas descreve projetos do pórtico, das salas, depósitos, câmaras, pátios, tesouros e do lugar destinado à Arca. Também havia instruções sobre utensílios, candelabros, mesas, recipientes e o funcionamento dos sacerdotes e levitas. O próprio Davi entendia esses planos como recebidos de Deus. (1 Crônicas 28:1-21) Depois vieram as ofertas.
Davi já havia separado materiais do reino, mas decidiu acrescentar também parte de sua fortuna pessoal. Ouro e prata em quantidades enormes foram destinados ao projeto. Então virou-se para os líderes: — E vocês? Quem também quer participar? Príncipes, chefes, comandantes e administradores começaram a oferecer metais e riquezas. O povo comemorou. Davi fez uma oração pública reconhecendo que, no fim das contas, toda aquela riqueza já vinha de Deus.
Era quase como se o velho rei estivesse entregando não apenas um trono ao filho, mas uma missão. (1 Crônicas 29:1-20) O jovem que herdou um reino e uma obra inacabada A sucessão de Davi, porém, não aconteceu sem problemas. Quando o rei já estava muito velho, seu filho Adonias tentou antecipar as coisas e se apresentar como novo rei. Ele reuniu apoiadores, preparou uma celebração e aparentemente esperava transformar o fato consumado em sucessão legítima. Foi quando Natã procurou Bate-Seba, mãe de Salomão. Os dois lembraram Davi da promessa de que Salomão seria seu sucessor. Davi reagiu.
Mandou que Salomão fosse colocado sobre a mula real, conduzido até Giom e ali ungido pelo sacerdote Zadoque. Natã, Zadoque, Benaia e os partidários de Davi participaram do ato. As trombetas soaram. — Viva o rei Salomão! A cidade entrou em festa.
Adonias ouviu o barulho de longe e percebeu que seu plano havia terminado. (1 Reis 1:5-53) Pouco depois, Davi morreu. Salomão sentou-se no trono de Israel. (1 Reis 2:10-12; 1 Crônicas 29:26-28) Ele tinha agora o reino. Tinha os planos. Tinha materiais. Tinha trabalhadores. Tinha uma ordem recebida do pai. Mas ainda faltava algo que talvez fosse mais importante do que tudo isso: saber governar. Foi então que Salomão foi até Gibeão. Naquela época, o Templo ainda não existia. Parte importante do culto ainda era realizada nos antigos locais sagrados.
O Tabernáculo estava em Gibeão, enquanto a Arca havia sido levada por Davi para Jerusalém. Ali Salomão ofereceu sacrifícios. Naquela noite, enquanto dormia, teve um sonho. Deus lhe perguntou: — O que você quer que eu lhe dê? Era uma pergunta perigosa para qualquer rei. Poder? Dinheiro? Vitória sobre inimigos? Vida longa? Salomão escolheu outra coisa. — Eu sou jovem e tenho um povo enorme para governar. Dê-me sabedoria para saber distinguir o certo do errado e governá-los bem. A resposta agradou a Deus.
Já que Salomão não pedira riquezas, morte dos inimigos ou vida longa, receberia sabedoria — e também riqueza e prestígio. (1 Reis 3:4-15; 2 Crônicas 1:1-13) Pouco depois, o famoso julgamento das duas mulheres que disputavam a maternidade de uma criança espalhou sua reputação. Israel começou a olhar para aquele jovem rei de outro jeito. (1 Reis 3:16-28)
O reino entrou num período de organização e prosperidade. Havia administradores, governadores, oficiais, exército, abastecimento e relações com outros países. A fama da sabedoria de Salomão cresceu para além das fronteiras de Israel. (1 Reis 4:1–5:14) Agora finalmente havia chegado a hora. Salomão procura um velho amigo de seu pai Davi havia mantido boas relações com Hiram, rei de Tiro. Tiro, na região fenícia, tinha justamente algo de que Salomão precisava desesperadamente: madeira de excelente qualidade e trabalhadores especializados em cortá-la.
Quando Hiram soube que Salomão havia assumido o trono, enviou representantes. Salomão aproveitou a oportunidade. Mandou uma mensagem explicando: — Meu pai, Davi, passou boa parte da vida em guerra e não conseguiu construir a Casa. Agora há paz ao meu redor. Quero cumprir o que foi determinado e construir o Templo. E então fez o pedido: — Preciso dos cedros do Líbano. Hiram aceitou. Os homens de Tiro cortariam as árvores. A madeira seria levada até o mar, amarrada em grandes conjuntos e transportada pela costa. Crônicas diz que ela seria enviada até Jope, de onde poderia seguir por terra até Jerusalém.
Em troca, Salomão forneceria grandes quantidades de trigo, azeite e outros alimentos para a casa de Hiram e seus trabalhadores. Assim nasceu uma parceria entre dois reinos para a construção do Templo. (1 Reis 5:15-26; 2 Crônicas 2:3-16) Só que madeira não bastava. Era preciso pedra. Muita pedra. E gente. Muita gente. Salomão organizou uma força de trabalho gigantesca. Reis fala de trinta mil israelitas convocados para trabalhar em turnos no Líbano. Dez mil iam durante um mês e depois passavam dois meses em casa.
Adoniram, indicado por Salomão, ficou responsável por essa força de trabalho, sendo uma espécie de “gerente” de pessoal. Além deles, aparecem setenta mil carregadores e oitenta mil cortadores de pedra, acompanhados por milhares de supervisores.
Crônicas preserva números um pouco diferentes para os supervisores, mas descreve praticamente a mesma escala monumental de trabalho. (1 Reis 5:27-32; 2 Crônicas 2:1-2,17-18) Nas pedreiras eram retirados enormes blocos de pedra. Os construtores de Salomão, os trabalhadores de Hiram e homens de Gebal — a antiga Biblos — preparavam a pedra e a madeira. Tudo precisava chegar pronto. E isso produziu um dos detalhes mais curiosos de toda a história. O lugar onde não se ouviam martelos Quatro anos depois de começar seu reinado, Salomão finalmente deu início à construção.
Era o segundo mês do ano, chamado Zive no relato de Reis. O local era aquele mesmo terreno escolhido nos dias de Davi: a antiga eira de Ornã, no Monte Moriá. (1 Reis 6:1; 2 Crônicas 3:1-2) E há um detalhe quase cinematográfico no texto. As pedras eram trabalhadas antes de chegar ao Templo. Eram cortadas e preparadas na pedreira. Por isso, enquanto o edifício era levantado, o relato diz que não se ouvia naquele lugar o som de martelo, machado ou ferramenta de ferro. Imagine uma construção monumental de pedra acontecendo sem o barulho que normalmente associamos a uma obra. Os sons mais pesados ficavam longe dali.
As pedras chegavam preparadas. Então eram colocadas em seu lugar. (1 Reis 6:7) Aos poucos, o Templo começou a subir sobre Jerusalém. A Casa começa a tomar forma O edifício principal tinha sessenta côvados de comprimento, vinte de largura e trinta de altura. Se imaginarmos um côvado em torno de quarenta e cinco centímetros, estamos falando de algo próximo de vinte e sete metros de comprimento, nove de largura e treze ou quatorze metros de altura. Não era gigantesco segundo os padrões de grandes catedrais ou templos posteriores. Mas esse não era um grande salão destinado a receber multidões.
Grande parte das atividades aconteceria nos pátios. O edifício propriamente dito era a área sagrada.
(1 Reis 6:2) Na frente havia um pórtico. Ao redor das paredes externas foram construídas câmaras laterais distribuídas em três níveis. Havia escadas para acessar os pisos superiores e pequenas janelas abertas nas partes altas das paredes. (1 Reis 6:3-10) Por fora, pedra. Por dentro, madeira. As paredes internas foram revestidas de cedro desde o chão até o teto. O piso recebeu madeira de cipreste. O resultado era que, no interior, praticamente não se via a pedra das paredes. A madeira ainda recebeu esculturas de flores, plantas, palmeiras e figuras de querubins. Depois veio o ouro. Muito ouro.
As superfícies internas foram revestidas de ouro, assim como partes das portas, paredes e elementos do santuário. Crônicas descreve ainda pedras preciosas utilizadas na decoração. (1 Reis 6:14-22,29-35; 2 Crônicas 3:4-9) Mas o ponto mais importante ficava no fundo. O lugar mais sagrado da Casa No interior do Templo foi preparado um espaço separado. Era o Santo dos Santos. Tinha vinte côvados de comprimento, vinte de largura e vinte de altura — aproximadamente um cubo.
Ali seria colocada a Arca da Aliança. (1 Reis 6:16,19-20) Dentro desse espaço Salomão mandou colocar dois grandes querubins feitos de madeira e revestidos de ouro. Cada um tinha cerca de dez côvados de altura. Suas asas abertas atravessavam a largura do aposento: uma asa alcançava a parede, as asas interiores tocavam uma na outra no centro e as asas externas alcançavam a parede oposta.
Debaixo dessas asas, mais tarde, seria colocada a Arca. (1 Reis 6:23-28; 2 Crônicas 3:10-13) Crônicas menciona ainda um grande véu feito com tecidos azul, púrpura e carmesim, decorado com querubins, separando aquela área. (2 Crônicas 3:14)
Pouco a pouco, aquilo que durante gerações havia sido representado por uma tenda móvel estava ganhando pedra, madeira, portas, ouro e um endereço permanente em Jerusalém. Mas a obra ainda estava longe de terminar. Porque o Templo precisava de um mestre do metal. Outro Hiram entra na história Aqui é importante não confundir duas pessoas. Já havia Hiram, o rei de Tiro, aliado de Salomão. Agora aparece outro homem vindo de Tiro: um artesão chamado Hiram Abiff, ou Huram-Abi, como aparece em Crônicas. Sua mãe era israelita e seu pai era de Tiro.
Reis o apresenta especialmente como um trabalhador extraordinariamente habilidoso no bronze. Crônicas amplia a descrição e o apresenta como capaz de trabalhar também ouro, prata, ferro, pedra, madeira, tecidos e trabalhos de gravação e decoração. (1 Reis 7:13-14; 2 Crônicas 2:13-14) Salomão o trouxe para participar da obra. E algumas das peças mais impressionantes do Templo saíram de seu trabalho. Duas colunas diante do Templo Hiram Abif produziu duas enormes colunas de bronze para o pórtico.
Reis dá a cada coluna dezoito côvados de altura, algo em torno de oito metros, sem contar os grandes capitéis colocados sobre elas. Esses capitéis eram decorados com redes, correntes, figuras de lírios e centenas de romãs. Quando ficaram prontas, as colunas foram colocadas diante da entrada. E receberam nomes. A coluna do lado sul foi chamada Jachin. A do lado norte, Boaz. (1 Reis 7:15-22; 2 Crônicas 3:15-17) Elas não sustentavam simplesmente um teto como colunas comuns escondidas dentro de uma construção. Estavam ali, visíveis, diante da entrada do Templo. Mas Hiram ainda tinha muito trabalho pela frente.
Um mar feito de bronze Outra peça monumental foi um enorme reservatório circular de bronze conhecido simplesmente como Mar.
Tinha dez côvados de uma borda à outra e cinco de altura. Era tão grande que o relato mede sua circunferência em cerca de trinta côvados. A borda lembrava a flor de um lírio. E o mais impressionante estava embaixo. O enorme recipiente repousava sobre doze bois de bronze. Três voltados para o norte. Três para o sul. Três para o leste. Três para o oeste.
Os animais ficavam com a parte traseira voltada para o centro, sustentando o grande reservatório acima deles. (1 Reis 7:23-26; 2 Crônicas 4:2-5) Reis e Crônicas dão números diferentes para sua capacidade — Reis fala em dois mil batos, enquanto Crônicas fala em três mil —, mas os dois relatos concordam no ponto essencial: era um reservatório gigantesco. Além dele, foram construídas dez pias menores, distribuídas pelos lados do Templo e destinadas às lavagens relacionadas aos sacrifícios.
Crônicas diferencia seu uso: essas pias serviriam para lavar aquilo que fosse utilizado nas ofertas, enquanto o grande Mar serviria à purificação dos sacerdotes. (1 Reis 7:27-39; 2 Crônicas 4:6) As bases dessas pias também eram ricamente trabalhadas, com painéis decorados por figuras de leões, bois, querubins e outros ornamentos. Hiram produziu ainda recipientes, pás, bacias e outros objetos necessários aos serviços do Templo. (1 Reis 7:27-47; 2 Crônicas 4:11-18) Essas grandes peças de bronze foram fundidas longe do monte do Templo, na planície do Jordão, numa região entre Sucote e Zaretã.
Era uma operação industrial de enormes proporções para seu tempo. (1 Reis 7:46; 2 Crônicas 4:17) E dentro do Templo a riqueza continuava. Havia altar de ouro, mesas para os pães sagrados, candelabros, lâmpadas, taças, bacias, incensários, utensílios e portas revestidas de ouro.
Crônicas fala em dez candelabros de ouro e dez mesas, distribuídos pelos dois lados do interior. (1 Reis 7:48-50; 2 Crônicas 4:7-8,19-22) Quando o trabalho finalmente terminou, Salomão mandou trazer tudo aquilo que Davi havia consagrado — ouro, prata e objetos sagrados — e colocou esses bens nos tesouros do Templo. (1 Reis 7:51; 2 Crônicas 5:1) O sonho do velho rei estava praticamente pronto.
Sete anos A construção começara no quarto ano do reinado de Salomão. Terminou no décimo primeiro. Foram cerca de sete anos de trabalho. (1 Reis 6:37-38) O texto bíblico depois descreve também o enorme complexo palaciano de Salomão, que levou treze anos para ficar pronto. Templo e palácio fazem parte de um conjunto de grandes construções que, segundo Reis, ocupou aproximadamente vinte anos. (1 Reis 7:1-12; 9:10) Mas terminar um edifício não era a mesma coisa que transformá -lo no centro da vida religiosa de Israel.
Faltava colocar dentro dele aquilo para o qual o espaço mais sagrado havia sido preparado desde o início. A Arca. O dia em que a Arca subiu para o Templo Salomão convocou os anciãos de Israel, os chefes das tribos e os líderes das famílias. Jerusalém começou a receber gente de todo o reino. Era o sétimo mês e uma grande festa estava sendo celebrada. (1 Reis 8:1-2; 2 Crônicas 5:2-3) A Arca ainda estava na Cidade de Davi, em Sião. Os sacerdotes a levantaram. Também foram levados o antigo Tabernáculo e os objetos sagrados que ainda estavam associados a ele.
Depois de gerações de deslocamentos — deserto, acampamentos, guerras, cidades e tendas — a Arca faria seu último trajeto naquela história. Agora subiria até o Templo. (1 Reis 8:3-4; 2 Crônicas 5:4-5) Salomão e a multidão caminhavam diante dela oferecendo sacrifícios. O relato diz que foram tantos bois e ovelhas que não havia mais como contá-los. (1 Reis 8:5; 2 Crônicas 5:6) Então os sacerdotes entraram no Templo. Passaram pelo salão. Chegaram ao Santo dos Santos. E colocaram a Arca exatamente onde tudo havia sido preparado para recebê -la: sob as enormes asas dos querubins.
Dentro dela estavam as duas tábuas de pedra relacionadas à aliança feita nos dias de Moisés. (1 Reis 8:6-9; 2 Crônicas 5:7-10) Os sacerdotes começaram a sair. E então aconteceu uma coisa que ninguém ali poderia produzir com madeira, pedra, ouro ou bronze. Uma nuvem encheu a Casa. A presença foi descrita de forma tão intensa que os sacerdotes não conseguiram continuar o serviço. O Templo que durante anos estivera cheio de trabalhadores agora estava cheio de uma nuvem.
E os homens tiveram de parar. (1 Reis 8:10-11; 2 Crônicas 5:11-14) Salomão olhou para aquilo e percebeu que o momento pelo qual seu pai havia esperado finalmente chegara. “Meu pai quis construir esta Casa” Diante da multidão, Salomão voltou-se para o povo. E contou a história. Lembrou que Davi havia desejado construir aquela Casa. Lembrou que Deus aceitara a intenção de seu pai, mas determinara que o filho de Davi faria a obra. Então Salomão pôde dizer, em essência: — A promessa foi cumprida. Eu ocupei o lugar de meu pai no trono e construí esta Casa.
E aqui preparei um lugar para a Arca da Aliança. (1 Reis 8:14-21; 2 Crônicas 6:1-11) Era uma afirmação simples. Mas atravessava gerações. Davi tinha pensado naquela Casa décadas antes. Agora seu filho estava diante dela. Pronta. A oração de Salomão Salomão ficou diante do altar. Crônicas descreve uma plataforma de bronze colocada no pátio. Diante de toda a assembleia, o rei estendeu as mãos para o céu e ajoelhou-se. (1 Reis 8:22,54; 2 Crônicas 6:12-13) Então começou a orar. E talvez a parte mais interessante de sua oração seja que Salomão reconhece imediatamente um problema:
Deus não cabia naquela construção. Era quase uma contradição. Ele havia passado anos construindo uma Casa para Deus e, no dia da inauguração, admitiu que nem os céus seriam capazes de contê-lo. Em outras palavras: — Como eu poderia imaginar que este edifício pudesse conter Deus? Mesmo os céus não podem. Ainda assim, peço que olhe para este lugar e escute as orações feitas aqui. (1 Reis 8:27-30; 2 Crônicas 6:18-21) O Templo, portanto, não seria uma caixa onde Deus ficaria preso. Seria um ponto de encontro. Um lugar para onde o povo voltaria o rosto quando precisasse buscar a Deus.
Então Salomão começou a imaginar situações.
Se alguém fosse acusado de um crime e viesse diante do altar, que Deus julgasse com justiça. (1 Reis 8:31-32) Se Israel fosse derrotado por seus inimigos por causa de seus próprios erros, mas depois reconhecesse aquilo e voltasse a orar, que Deus escutasse. (1 Reis 8:33-34) Se não houvesse chuva e o povo se arrependesse, que Deus ouvisse e enviasse chuva novamente. (1 Reis 8:35-36) Se viessem fome, peste, doença, gafanhotos ou qualquer outra calamidade, e cada pessoa viesse diante de Deus sabendo a dor que carregava no próprio coração, que fosse ouvida. (1 Reis 8:37-40) Então Salomão fez um pedido surpreendente.
Lembrou também dos estrangeiros. Pessoas que não pertenciam a Israel poderiam ouvir falar daquele Deus e viajar de terras distantes até Jerusalém. Quando isso acontecesse, Salomão pediu que Deus também escutasse essas pessoas. Para que outros povos conhecessem seu nome. (1 Reis 8:41-43; 2 Crônicas 6:32-33) Se Israel saísse para a guerra, que suas orações fossem ouvidas. (1 Reis 8:44-45) E finalmente Salomão imaginou o pior cenário. Um dia o povo poderia abandonar Deus. Poderia pecar de tal maneira que acabasse derrotado e levado como prisioneiro para uma terra distante.
Mesmo lá, longe de Jerusalém, se aquelas pessoas se arrependessem e orassem voltadas para a terra de Israel, para Jerusalém e para o Templo, Salomão pediu que Deus as escutasse e perdoasse.
(1 Reis 8:46-53; 2 Crônicas 6:36-39) Curiosamente, aquela última parte da oração acabaria se tornando especialmente importante muitas gerações depois. Mas naquele dia ninguém estava pensando na destruição. Era dia de festa. Fogo do céu Quando Salomão terminou a oração, Crônicas conta algo que Reis não registra. Fogo desceu do céu e consumiu os sacrifícios. A glória de Deus encheu novamente o Templo. Os sacerdotes não conseguiam entrar. Ao ver aquilo, o povo se prostrou com o rosto no chão. (2 Crônicas 7:1-3) Depois começou uma celebração em uma escala difícil até de imaginar.
O relato fala em vinte e dois mil bois e cento e vinte mil ovelhas oferecidos por Salomão e pelo povo durante a dedicação. A quantidade foi tão grande que Salomão precisou consagrar também parte do pátio para os sacrifícios, porque o altar principal não comportava tudo. (1 Reis 8:62-64; 2 Crônicas 7:4-7) Sacerdotes assumiram seus lugares. Levitas tocaram instrumentos. Trombetas soaram. A multidão celebrou. A festa se prolongou por dias.
Quando finalmente as pessoas começaram a voltar para suas casas, o texto as descreve felizes pelo que havia acontecido com Davi, Salomão e Israel. (1 Reis 8:65-66; 2 Crônicas 7:8-10) A Casa estava pronta. A Arca estava em seu lugar. O sonho de Davi havia se tornado realidade. Mas então veio uma advertência. O Templo não era uma garantia Depois que toda a construção estava concluída, Deus apareceu novamente a Salomão. Era a segunda grande aparição mencionada pelo relato de Reis, depois daquela em Gibeão.
A resposta começou de maneira positiva: — Eu ouvi sua oração. Consagrei esta Casa. Mas logo veio a condição. Salomão deveria continuar fiel. Se ele e seus descendentes abandonassem os mandamentos e começassem a servir outros deuses, nem o reino nem o próprio Templo os protegeriam das consequências. A advertência é pesada. Aquela Casa poderia tornar-se ruína. Pessoas poderiam passar diante dela e perguntar: — Como uma coisa dessas aconteceu? E a resposta seria: — Porque abandonaram o Deus que os havia conduzido. (1 Reis 9:1-9; 2 Crônicas 7:11-22) Isso muda bastante a maneira de enxergar a história.
O Templo era importante. Mas o edifício, sozinho, não bastava. Não havia ouro suficiente nas paredes, bronze suficiente nos pátios ou cedro suficiente no teto que substituísse aquilo que a própria aliança exigia. E é aqui que a história de Salomão começa a ganhar um tom um pouco mais triste. O rei no auge Durante algum tempo, tudo parecia confirmar que Salomão havia chegado ao ponto máximo de sua história. Sua fama se espalhou. A riqueza aumentou. Navios traziam produtos de terras distantes. Ouro chegava ao reino. Salomão construiu cidades, fortalezas, depósitos e estruturas administrativas.
Hiram, rei de Tiro, continuou ligado aos negócios de Salomão. Reis conta inclusive que, depois dos grandes projetos de construção, Salomão lhe entregou vinte cidades da Galileia — cidades das quais Hiram não gostou muito. (1 Reis 9:10-28) O Templo passou a funcionar regularmente. Salomão apresentava ofertas ali e seguia o calendário das festas religiosas. (1 Reis 9:25; 2 Crônicas 8:12-16) Sua sabedoria se tornou famosa a ponto de a rainha de Sabá viajar até Jerusalém para testá -lo com perguntas difíceis.
Ela viu sua corte, suas construções, sua organização, sua riqueza e sua relação com o Templo. Ficou impressionada. Segundo ela, as histórias que haviam chegado ao seu país nem sequer faziam justiça ao que encontrou pessoalmente. (1 Reis 10:1-13; 2 Crônicas 9:1-12) Salomão parecia ter tudo. Sabedoria. Dinheiro. Poder. Fama. Paz. Um reino forte. E uma Casa magnífica construída para Deus. Talvez fosse justamente aí que estivesse o perigo. O homem que construiu o Templo começou a se afastar dele A parte final da história de Salomão em Reis é desconfortável.
O mesmo rei que, ainda jovem, pedira sabedoria para governar começou a fazer escolhas bem diferentes. Salomão acumulou muitas esposas estrangeiras. O texto chega a falar em setecentas esposas de origem nobre e trezentas concubinas. E quando envelheceu, essas relações passaram a influenciar sua vida religiosa. (1 Reis 11:1-4) Aquele homem que havia construído em Jerusalém uma Casa dedicada ao Deus de Israel passou a permitir e promover o culto de outras divindades. Construiu lugares de culto para deuses estrangeiros, entre eles Quemós e Moloque. (1 Reis 11:5-8) É difícil imaginar um contraste maior.
Anos antes, diante de todo Israel, Salomão havia se ajoelhado diante do Templo e pedido que seu povo nunca abandonasse Deus. Agora era ele quem se afastava. Segundo Reis, Deus se indignou justamente porque já havia aparecido a Salomão e o advertido sobre isso. Então veio a sentença: O reino seria rasgado.
Não durante a vida de Salomão, em consideração a Davi, mas durante o reinado de seu filho. Uma parte permaneceria com a casa de Davi. O restante seria entregue a outro. (1 Reis 11:9-13) Os sinais começaram a aparecer ainda durante a vida do rei. Adversários surgiram fora do reino. E dentro dele apareceu Jeroboão, um funcionário competente que Salomão havia colocado sobre trabalhadores da casa de José. O profeta Aías encontrou Jeroboão no caminho, pegou uma capa nova e a rasgou em doze pedaços. Entregou dez a ele.
Era uma mensagem visual difícil de esquecer: O reino de Salomão seria dividido. (1 Reis 11:14-39) Salomão, ao saber da ameaça, tentou matar Jeroboão. Ele fugiu para o Egito. (1 Reis 11:40) Depois de quarenta anos de reinado, Salomão morreu. Seu filho Roboão assumiu o trono. (1 Reis 11:41-43; 2 Crônicas 9:29-31) E pouco depois o reino realmente se partiu. A Casa permaneceu Salomão morreu. Davi já estava morto havia décadas. Hiram Rei de tiro desapareceu da história. Hiram-Abiff terminou seu trabalho.
Os milhares de homens que cortaram pedras, carregaram madeira, fundiram bronze e ergueram paredes também desapareceram. Mas a Casa permaneceu em Jerusalém. Por gerações. Reis vieram e morreram. Alguns cuidaram do Templo. Outros o abandonaram. Alguns retiraram seus tesouros para pagar inimigos. Outros restauraram suas portas e serviços.
Durante séculos, aquele edifício continuou ligado à história de Israel. Até que aconteceu exatamente aquilo que Salomão havia imaginado em sua oração e aquilo sobre o qual recebera uma advertência. Jerusalém caiu. O Templo foi saqueado. As grandes peças de bronze foram quebradas. As colunas, o Mar e outros objetos foram levados. Os tesouros desapareceram. E a Casa que Davi sonhara e Salomão construíra acabou consumida pelo fogo. (2 Reis 25:8-17; 2 Crônicas 36:17-21) Séculos antes, no dia da dedicação, Salomão havia perguntado como um edifício poderia conter Deus se nem os céus eram capazes disso.
No fim, talvez essa fosse uma das ideias mais importantes de toda a história. O Templo havia sido construído com pedras enormes, cedros trazidos de longe, toneladas de bronze e ouro suficiente para transformar seu interior. Milhares de pessoas trabalharam nele. Reis fizeram acordos internacionais para construí-lo. Davi passou seus últimos anos preparando-o. Salomão passou sete anos levantando-o. E ainda assim a própria narrativa bíblica nunca permite que o edifício se torne maior do que aquilo que ele deveria representar.
A história começou com Davi olhando para uma tenda e pensando: “Deus deveria ter uma casa.” Terminou mostrando que nenhuma casa poderia, de fato, conter Deus.
Entre uma coisa e outra ficaram uma eira comprada em Jerusalém, um velho rei que preparou uma obra que não viveria para ver pronta, um jovem rei que pediu sabedoria, cedros descendo das montanhas do Líbano, milhares de pedras sendo trabalhadas longe do can teiro, duas colunas de bronze diante da entrada, um enorme Mar sustentado por doze bois, paredes cobertas de ouro, querubins abrindo suas asas sobre a Arca e uma multidão observando uma nuvem tomar conta de tudo aquilo. Era o Templo de Jerusalém. A Casa que Davi quis construir. A Casa que Salomão finalmente levantou.
E a Casa cuja própria história lembrava que pedra, madeira e ouro nunca seriam suficientes sem aquilo que deveria existir por trás deles.
Este texto foi elaborado exclusivamente a partir dos relatos bíblicos presentes nos livros de Samuel, Reis e Crônicas, recorrendo-se apenas a dicionários e ferramentas de consulta para esclarecimento de termos. A narrativa resulta da interpretação e organização do autor, com liberdade literária empregada para dar fluidez, continuidade e clareza à história, sem a intenção de alterar os acontecimentos apresentados nas Escrituras.
Os diálogos foram livremente adaptados e parafraseados em linguagem contemporânea, preservando-se, tanto quanto possível, o sentido das falas e dos acontecimentos descritos no texto bíblico. M∴ M∴ Aislan Fabrício Nunes da Silva Pansardis


Comentários
Participe da conversa com respeito.
Carregando comentários…